Isso andeja por um
caminho que se alonga em sua academicidade, em suas discussões e propostas...
A constatação mais
pessoal que encontrei para mostrar minha definição de poesia,
sinteticamente, foi: JANELA.
Pois bem, aí se
perguntam alguns, de fato: Que diabos é isso?!
Janela, sim. Ora,
quem se debruça sobre uma poesia, com olhos – muitas vezes – de estranhamento,
de distanciamento, mas com boa intenção, haverá de desembocar numa janela de
acasos.
Empresa tortuosa a
dos poetas: abrirem janelas a quem resiste em não vê-las.
Por minha maneira, em
verso ordinariamente simples, homenageio estes ilustres que abrem janelas pra
dar graça e cor aos olhos de dentro da gente.
Arriscar-me-ei no
terreno dos mestres, com sinceridade. Desculpem possíveis deslizes. O horário
me é extremo, já que agora são 5 da manhã.
Balada ao poeta da
sétima estrela
A janela entreaberta,
Mal e mal, deixa
vaza;
A luz débil
acerta
Uma das salas da
casa.
O raio findo da tarde
Invade o interior da
sala:
Átimo de serenidade,
Em que até o silêncio
cala.
O ácaro dançarino,
Sob o lume da fresta,
Faz do facho,em
desatino,
O palco que a luz
empresta.
O vento soturno,
Aproveita a ocasião:
Na troca dos turnos,
Faz a sua composição.
O dia cedeu returno
Para a noite dar
vazão,
Imprimindo sons
noturnos
Na casa da invenção.
A sala desabitada,
Viu o soprar da
ventania
Desfolhando a
papelada
De cima da
escrivaninha.
Quem será que, agora,
Ocupa'sta moradia?
Com telhados de
aurora
E estrelas fugidias?!
Que será que lá dorme
Em catres de insônia?!
Com colchas tão
disformes,
Petalada de
begônias?!
Quem será que lá come
Aquele estranho
suprimento?
Como se a própria
fome
Se enfartasse do
alimento.
Com sabor de tempo
inverso
E um tempero mais
forte:
É uma ceia feita em
versos,
Dos que engabelam a
morte.
Quem será que lá
vive,
Nesta irreal
condição?
E com quimeras
convive,
Em consórcio co'a
solidão.
Vive,
assim, tão louco, a esmo?!
A recitar para as
estrelas
Que queria em si
mesmo,
No céu dos olhos,
contê-las?!
Quem será este
cativo,
Que nos olhos tem um
céu?
Que juraram que está
vivo,
Eternal nalgum
papel?!
Quem será este homem,
Que anda livre pelos
versos?!
Que em si mesmo
consome
A imensidão de
universos.
Só que a casa está
sem dono,
Sem o último
residente...
Às traças, em
abandono,
Em ruína decadente.
Por que dizem , pelas
ruas,
Que lá mora uma
PESSOA?!
Que bebe sonhos nas
luas,
E se embriaga de
garoas.
Que vive em todos
lugares
Nos canteiros, nos
QUINTAIS,
De quintanas,
quintanares,
Pelos livros, nos
jornais?!
Há na boca de
entendidos
Um prudente discurso:
Como se o
desconhecido
Tivesse mudado o
curso.
Será que, por acaso,
Nesta casa ainda mora?
Não, ele reside nos ocasos,
Pendulando vida afora.
Não, ele reside nos ocasos,
Pendulando vida afora.
A cada vez que
proclamam
O seu legado
invisível,
E até mesmo declamam
Sua vertente
sensível.
Então, no
entendimento,
Descubro do que
era feito:
De átomos de
esquecimento,
Mas resistente
a este efeito.
O tempo apaga a
matéria,
Mas perpetua talentos.
Pois na alma tem
artérias,
Aonde correm seus
inventos.
Não ficou para
semente,
No impulso temporal.
Era gente como a
gente,
Mas com ímpeto
imortal.
O segredo vem eufórico,
Aos poucos, se descortina:
Há um ser fantasmagórico,
Por de trás das cortinas?!
Não! Está sombria, de fato,
Mas é desfeita de habitante.
A casa tem um contrato,
Só com os livros da estante!
A residência era antes,
Abrigo de um só apenas:
Hoje, serve pra Cervantes,
Neruda,Machado, poemas...
Suspeitam que o
morador
Fosse louco ou
sinistro...
Um recluso, um
doutor,
Comensal e
até ministro.
Um gênio, uma
escrava,
Uma duquesa dileta:
Na verdade, não
passava,
Apenas de um poeta.
A papelada que a ventania
Espalhou por entre cantos,
Era o santuário de poesias
Do ilustre do recanto.
Dizem que ele persiste,
Pulsando em cada tema.
Que sua alma só insiste
Em renascer no poema!
E o suspiro final em cena,
Veio à boca, por maleza;
Sua mão, firma co'a, pena,
Deixou-se cair na mesa.
Ao espirar, deixou
escrito
Seu desejo nos
poemas:
Queria viver
proscrito,
Em sua sétima
estrela.
Guilherme Suman

