sábado, 19 de maio de 2012

O TEMPO E O VENTO - RESUMO E CINEMA


Nobres visitantes!

No meio das postagens do meu amigo Rodrigo Ugaretti,  que viverá o Padre Lara Jovem no filme O Tempo e o Vento, encontrei um link bacana.





Fotos do set de filmagem!


De muito bom gosto o trabalho fotográfico e dá um baita panorama estético do que se configura no imaginário de leitores ou ouvintes  da história em que o romance histórico de Érico Veríssimo se apresenta.

A plasticidade das imagens, por sua vez, produz uma sensação de que estamos diante de um épico da Literatura - sem dúvida- se revelando um épico do cinema nacional.

Os envolvidos são da melhor qualidade: elenco, produção e roteiro estão em mãos mágicas!

Confiram e aguardem esta película!







O TEMPO E O VENTO - breves aspectos 

Tempo = passagem, destruição = idéia traduzida para a figura do Homem.

Vento = permanência, memória = idéia traduzida para a figura da Mulher.

Mulheres gaúchas ( acostumadas a subordinação matrimonial. Porém, são destemidas; em tempos de guerra, assumem compromissos e gerenciam grandes propriedades, por exemplo, na ausência do marido que serve em combate. E ainda esperam em silêncio e prontidão.Costurando silêncios e , através da evocação causada por noites de ventania ou ventos costumeiros, cumprem o dever de constância do clã: lembram dos mortos, por exemplo, como que trazendo-os para o protagonismo das recordações, permanecendo o elemento familiar, a tradição).


O romance de Érico trata-se de uma trilogia ( O Continente, O Retrato e o Arquipélago) em que a história do Rio Grande do Sul , por sua vez, será contada sob o drama, os dilemas de famílias específicas e ficcionais, mas abordando eventos históricos desde a fundação da classe estancieira, a elite rural que move a engrenagem política e social do Estado, até a atmosfera do governo Vargas. 
São 200 anos de constituição de uma região provinciana, de fronteira - por isso, alia-se a idéia de um Estado constantemente envolvido em conflitos militares - caracterizando o povo sulino como propensos ao comportamento agressivo, bélico, guerreiro.

A identidade patriarcalista alicerça os fundamentos morais e culturais da sociedade gaúcha. 

Em uma cidade fictícia, Santa Fé, o AUTOR concentrará sua crítica - sendo expositivo, esclarecido, não negativando - ao tipo de conduta machista, violenta, dúbia que o os membros da elite representam.

No início, "O Continente", figuração representativa da unidade familiar, do elemento sólido, nos lança nas missões jesuíticas, durante as guerras guaraníticas; evento em que a União Ibérica - formada por Portugal e Espanha - em acordo estabelecido- pretendem retomar as reduções dos padres da ordem jesuíta( ambientados em reduções: tipos de micro-comunidades, de caráter de conduta coletiva.Os indígenas, desde o descobrimento, foram desarticulados de sua cultura elementar e absorvidos para a cultura ocidental europeia.Nas reduções, por exemplo, eram membros ativos da comunidade jesuítica, ajudando em ofícios, vestindo roupas, cumprindo ritos cristãos, promovendo a monogamia - alguns elementos que são plenamente diferente daquilo que estavam aculturados).

Ao passo da trama, o tempo avança e revela diversos hábitos da cultura e da mentalidade da região sulista; muitas vezes, aliada a intolerância e a um excesso de códigos de honra masculinizantes , baseados em uma moral rígida e patriarcal( como o mando de assassinato do índio Pedro Missioneiro pelo pai de Ana Terra, uma das mulheres mais expressivas da trama e representante maior do esteriótipo da figura feminina dos pampas,  a mulher amada pelo indígena.A execução veio pela mão dos irmãos de Ana pelo fato de Pedro ter engravidado-a).

O fruto deste romance clandestino será Pedro Terra. 

Pedro adulto, por sua vez, é pai de Bibiana Terra e Juvenal Terra.

Bibiana, outra grande personagem feminina de Érico, por seu turno, será atraída pelo distinto e singular Capitão Rodrigo - um dos mais antológicos personagens da Literatura Brasileira.

O capitão, um tipo errante, que , historicamente, como o termo gaúcho, pertenceria a um grupo inferiorizado, desvalido,pária social - ao contrário - é para o romance, então, uma espécie de herói; além, uma espécie de anti-herói.

Mesmo o capitão Rodrigo, uma figura bonachona, charmosa, viril, libertária, por sua vez, apresenta contrastes negativos que o legitimam como membro da perspectiva volátil do homem rude do pampa: aquele indivíduo combativo, dado aos vícios e transgressões sociais, como nos adultérios e jogos de azar.


Da união de Bibiana Terra e Capitão Rodrigo Cambará - o tipo macho que servirá na revolução Farroupilha, sendo amigo íntimo de Bento Gonçalves - se dará o clã principal da obra: a família Terra-Cambará.

A partir deste eixo, se destrincham outros grandes personagens, como Bolivar,Juvêncio Toríbio, doutor Rodrigo e Floriano
( membros destas raízes ancestrais e comportamentais dos Terra-Cambarás).



O início do livro é anacrônico; nos lança ao Sobrado, reduto em que se sucederá a noção de ciclo do romance, sendo o Continente começado e findado nesta mesma cena e ,enfim, no Arquipélago, final da trilogia - também retomada as circunstâncias acerca do tal Sobrado.Aqui, temos Bibiana já velha e Bolivar, seu filho, adulto, sitiados-  com demais membros da família, como a misteriosa e sado-masoquista esposa de Bolivar, que fora disputa por ele e seu melhor amigo e primo, Juvêncio, na adolescência, Luzia Silva, em pleno conflito civil na cidade de Santa Fé. Luzia é vista pelo Dr.Winter, um cidadão esclarecido e que se permite observar de fora os fatos acerca de Santa Fé da família do Sobrado, de forma metafórica, como a personificação da lenda Teiuiaguá pelo seu afetamento sadista,enfim.

As técnicas de Érico são singulares: uso de Intermezzos - inserções recortadas e poetizadas na prosa para apresentar rápida e efetivamente, por exemplo, alguns personagens menos centralizadores / contrapontos / flash-back's.


Em "O Retrato", Dr.Rodrigo, filho de Licurgo, neto de Bolivar, assume a herança do clã. É pintado sob boas tintas no começo, tendo se formado em Medicina no RJ. Regressa para Santa Fé e representa a mudança; comprometesse com assistencialismo, é benevolente e politizado, convergindo uma certa liderança na região. Porém, a imoralidade - a partir de sua corrupção pessoal, de adultérios, por exemplo, comprometem seu retrato - pintura feita pelo amigo espanhol, Pepe Guerra, e exposto no sobrado.Ao fim, seu retrato já não parece o mesmo do começo, sendo aliançado com a idéia da subversão de Dr.Rodrigo( homônimo de seu antecessor, o Capitão, a partir do fascínio de seu pai pelas estórias sobre o ilustre Rodrigo Cambará, um homem dos quatro costados, contadas pelo singular Fandango - um peão da estância do Angico, um reduto da família para momentos de férias e afins).

Por fim, " O Arquipélago", destoando de Continente, representa a dissolução da família, a fragmentação. A ideologia de Dr.Rodrigo,no início do tomo anterior, dá vazão ao corrupto e degenerado Dr.Rodrigo em instantes finais de sua vida. 
Sua relação com um de seus filhos, Floriano Cambará, se revela intrincada, distante e tensa. O rapaz representa a subjetividade que falta aos antecessores desta família caudilhesca dos confins do pampa. Dr Rodrigo representou, antes, uma alma caudilha com vultos intelectuais, mas deu espaço ao mais questionável comportamento. Porém, seu filho é um escritor, mais íntimo com a conduta das mulheres da família, que passa por crises amorosas e bloqueios criativos. Seus fantasmas estão aliados a falta de argumento emocional para com o pai.A distinção se dá , justamente, pela oposição sentimental. 
Por fim, Floriano se desvela como alter ego do próprio autor, como compromissado em levar à cabo um romance que pregue a memória de seus antepassados; a idéia é contar a história de sua família, impregnada de elementos históricos, para conservar a identidade dos seus. Eis que, após acerto de contas afetivos para com o pai - já debilitado em um hotel, vivendo com uma das amantes, Floriano expurga seus demônios existenciais e se permite a confecção de um romance com traços já descritos.Então, a cena final retoma a cena do Sobrado e o que o Cambará - o único que quebra com a perspectiva dos demais - está escrevendo é nada menos do que o próprio romance que se anuncia no prelúdio da obra.


DOM CASMURRO - BENEFÍCIO DA DÚVIDA



Seguinte: fui interrogado por alunos acerca da entrevista do professor Nailor Marques Junior (no Programa do Jô), no dia 4 de Maio. A interação do palestrante é dinâmica, sagaz, informada; percebe-se a articulação magnífica do referido professor. Porém, no término da conversa, o convidado - ao ser questionado sobre o tema do adultério em Dom Casmurro (como podem ver no link que disponibilizo sobre o caso), por sua vez, ATESTA a inocência de Capitu. Bem, como visto em aula, meus caros, reafirmo: o tema condutor da trama, sem dúvida, é o ciúme patológico de Bento Santiago, o Bentinho (como era conhecido afetivamente). Ainda, pelo caráter narrativo em que o próprio Dom Casmurro (alcunha adquirida por Bento ao ser, em sua velhice, um homem recluso, ranzinza...) narra os fatos de sua vida, em forma biográfica, não há confirmações de adultério!



A partir de uma obra na qual seu olhar se debruça para autoanalisar e compreender em que ponto, por fim, deu-se a tragédia de sua vida, Bento é o NOSSO ÚNICO ângulo, verificando a verossimilhança dos acontecimentos;  são as lentes que o narrador nos empresta para estudarmos os casos. Então, há uma parcialidade plena em Dom Casmurro: quando um narrador se condiciona em contar eventos sob a visão dele, apenas! Não temos outra perspectiva,. Isso, por seu turno, reforça o condicionamento de dúvida quanto ao adultério que Bento expõe e busca a adesão do leitor. Nós, leitores ávidos, nos questionamos, pois o olhar de Bento (ao legitimar a traição na qual ele se apega para explicar seu declínio existencial - justamente pela união de seu melhor amigo, Escobar, e sua esposa amada) se confronta com a inconclusividade de provas factuais para que fique clarividente a questão da traição.Portanto, o romance machadiano repercute no imaginário do público leitor, evidentemente, com proposta vinculada nestas dúvidas e partidos tomados.


O professor Luís Augusto Fischer , esta semana, lembrou-me de que nos anos 60,70, por exemplo, no predomínio da visão machista, alguns críticos confirmavam a traição. Ainda, o professor Paulo Seben , informalmente, remeteu-me ao texto de Helen Caldwell, autora que compara Machado de Assis ao grande Willian Shakespeare em virtude literária e temática (Otelo X D.Casmurro) que recupera a conduta de Capitu, personagem feminina expressiva do romance, tornando-a vítima do comportamento excessivo e afetado de Bento.POR ISSO,A visão de Nailor é pessoal. Sua conduta em rede nacional anexa-se a uma tese defendida em sua propriedade particular. É, no mínimo, equivocada a intenção de vender esta teoria para que seja a única resolução da problemática machadiana  em D.Casmurro, diante do eixo da dúvida; o elemento precioso na construção desta instigante narrativa.


Enquanto leitores, acentuados pelo concurso vestibular, não nos permitamos cair no contexto pessoal ou desinformado. Acerca deste romance, realço o que disse em aula: Por mais que defendamos uma bandeira – houve ou não traição – o material, o texto não permite sua conclusão. Há lacunas em Bento; sua alma perturbada pelo fracasso de sua vida, então,  exala uma tentativa de convencer-se -E CONVENCER-NOS- de sua constatação. Nós, cientes dos fatores, desconfiamos de sua legitimidade, justamente, a partir da falta de embasamentos (não há provas, uma foto, um flagrante, uma confissão...) e também pelo núcleo do caso ser defendido por apenas um dos lados, sem direito de defesa ou enunciação dos acontecidos por outra parte envolvida.Espero ter atingido aos que buscavam respostas sobre este especifico causo.





LANÇO-lhes, ainda, para finalizar, palavras de Alcir Pécorra, professor da UNICAMP, para reforçar o que defendo aqui: “É importante considerar o fator já mencionado do “ponto de vista” de quem narra — Bento Santiago — e não, certamente, Machado de Assis. Cabe a Bentinho “o critério para organizar o material narrativo de dentro da ficção ou de fora dela” (estou citando uma definição de Raúl H. Castagnino, crítico argentino). Em outras palavras, Bentinho narrador ilumina a seu bel prazer o que Castagnino chama de “ângulos especiais” da narração.As provas coligidas pelo narrador de Dom Casmurro parecem circunstanciais: a semelhança do seu filho com Escobar, amigo do tempo do seminário; os famosos “olhos de ressaca” ou “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” atribuídos a Capitu; as lágrimas de Capitu no enterro de Escobar, amigo do casal; certas atitudes dúbias que o narrador surpreende em ambos. Tais indicações não chegariam a configurar um caso de adultério; seriam, quando muito, suspeitas — mas a crítica, embalada pelo discurso emotivo de Bento Santiago, e pela deliberada ambigüidade do texto machadiano, aceitou-as como provas conclusivas”.


LINK DA ENTREVISTA:

http://www.youtube.com/watch?v=x4gFXeihL5k