sábado, 19 de maio de 2012

DOM CASMURRO - BENEFÍCIO DA DÚVIDA



Seguinte: fui interrogado por alunos acerca da entrevista do professor Nailor Marques Junior (no Programa do Jô), no dia 4 de Maio. A interação do palestrante é dinâmica, sagaz, informada; percebe-se a articulação magnífica do referido professor. Porém, no término da conversa, o convidado - ao ser questionado sobre o tema do adultério em Dom Casmurro (como podem ver no link que disponibilizo sobre o caso), por sua vez, ATESTA a inocência de Capitu. Bem, como visto em aula, meus caros, reafirmo: o tema condutor da trama, sem dúvida, é o ciúme patológico de Bento Santiago, o Bentinho (como era conhecido afetivamente). Ainda, pelo caráter narrativo em que o próprio Dom Casmurro (alcunha adquirida por Bento ao ser, em sua velhice, um homem recluso, ranzinza...) narra os fatos de sua vida, em forma biográfica, não há confirmações de adultério!



A partir de uma obra na qual seu olhar se debruça para autoanalisar e compreender em que ponto, por fim, deu-se a tragédia de sua vida, Bento é o NOSSO ÚNICO ângulo, verificando a verossimilhança dos acontecimentos;  são as lentes que o narrador nos empresta para estudarmos os casos. Então, há uma parcialidade plena em Dom Casmurro: quando um narrador se condiciona em contar eventos sob a visão dele, apenas! Não temos outra perspectiva,. Isso, por seu turno, reforça o condicionamento de dúvida quanto ao adultério que Bento expõe e busca a adesão do leitor. Nós, leitores ávidos, nos questionamos, pois o olhar de Bento (ao legitimar a traição na qual ele se apega para explicar seu declínio existencial - justamente pela união de seu melhor amigo, Escobar, e sua esposa amada) se confronta com a inconclusividade de provas factuais para que fique clarividente a questão da traição.Portanto, o romance machadiano repercute no imaginário do público leitor, evidentemente, com proposta vinculada nestas dúvidas e partidos tomados.


O professor Luís Augusto Fischer , esta semana, lembrou-me de que nos anos 60,70, por exemplo, no predomínio da visão machista, alguns críticos confirmavam a traição. Ainda, o professor Paulo Seben , informalmente, remeteu-me ao texto de Helen Caldwell, autora que compara Machado de Assis ao grande Willian Shakespeare em virtude literária e temática (Otelo X D.Casmurro) que recupera a conduta de Capitu, personagem feminina expressiva do romance, tornando-a vítima do comportamento excessivo e afetado de Bento.POR ISSO,A visão de Nailor é pessoal. Sua conduta em rede nacional anexa-se a uma tese defendida em sua propriedade particular. É, no mínimo, equivocada a intenção de vender esta teoria para que seja a única resolução da problemática machadiana  em D.Casmurro, diante do eixo da dúvida; o elemento precioso na construção desta instigante narrativa.


Enquanto leitores, acentuados pelo concurso vestibular, não nos permitamos cair no contexto pessoal ou desinformado. Acerca deste romance, realço o que disse em aula: Por mais que defendamos uma bandeira – houve ou não traição – o material, o texto não permite sua conclusão. Há lacunas em Bento; sua alma perturbada pelo fracasso de sua vida, então,  exala uma tentativa de convencer-se -E CONVENCER-NOS- de sua constatação. Nós, cientes dos fatores, desconfiamos de sua legitimidade, justamente, a partir da falta de embasamentos (não há provas, uma foto, um flagrante, uma confissão...) e também pelo núcleo do caso ser defendido por apenas um dos lados, sem direito de defesa ou enunciação dos acontecidos por outra parte envolvida.Espero ter atingido aos que buscavam respostas sobre este especifico causo.





LANÇO-lhes, ainda, para finalizar, palavras de Alcir Pécorra, professor da UNICAMP, para reforçar o que defendo aqui: “É importante considerar o fator já mencionado do “ponto de vista” de quem narra — Bento Santiago — e não, certamente, Machado de Assis. Cabe a Bentinho “o critério para organizar o material narrativo de dentro da ficção ou de fora dela” (estou citando uma definição de Raúl H. Castagnino, crítico argentino). Em outras palavras, Bentinho narrador ilumina a seu bel prazer o que Castagnino chama de “ângulos especiais” da narração.As provas coligidas pelo narrador de Dom Casmurro parecem circunstanciais: a semelhança do seu filho com Escobar, amigo do tempo do seminário; os famosos “olhos de ressaca” ou “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” atribuídos a Capitu; as lágrimas de Capitu no enterro de Escobar, amigo do casal; certas atitudes dúbias que o narrador surpreende em ambos. Tais indicações não chegariam a configurar um caso de adultério; seriam, quando muito, suspeitas — mas a crítica, embalada pelo discurso emotivo de Bento Santiago, e pela deliberada ambigüidade do texto machadiano, aceitou-as como provas conclusivas”.


LINK DA ENTREVISTA:

http://www.youtube.com/watch?v=x4gFXeihL5k


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