Nobres visitantes!
No meio das postagens do meu amigo Rodrigo Ugaretti, que viverá o Padre Lara Jovem no filme O Tempo
e o Vento, encontrei um link bacana.
Fotos do set de filmagem!
De muito bom gosto o trabalho fotográfico e dá um baita
panorama estético do que se configura no imaginário de leitores ou
ouvintes da história em que o romance
histórico de Érico Veríssimo se apresenta.
A plasticidade das imagens, por sua vez, produz uma sensação
de que estamos diante de um épico da Literatura - sem dúvida- se revelando um
épico do cinema nacional.
Os envolvidos são da melhor qualidade: elenco, produção e
roteiro estão em mãos mágicas!
Confiram e aguardem esta película!
O TEMPO E O VENTO - breves aspectos
Tempo = passagem, destruição = idéia traduzida para a figura do Homem.
Vento = permanência, memória = idéia traduzida para a figura da Mulher.
Mulheres gaúchas ( acostumadas a subordinação matrimonial. Porém, são destemidas; em tempos de guerra, assumem compromissos e gerenciam grandes propriedades, por exemplo, na ausência do marido que serve em combate. E ainda esperam em silêncio e prontidão.Costurando silêncios e , através da evocação causada por noites de ventania ou ventos costumeiros, cumprem o dever de constância do clã: lembram dos mortos, por exemplo, como que trazendo-os para o protagonismo das recordações, permanecendo o elemento familiar, a tradição).
O romance de Érico trata-se de uma trilogia ( O Continente, O Retrato e o Arquipélago) em que a história do Rio Grande do Sul , por sua vez, será contada sob o drama, os dilemas de famílias específicas e ficcionais, mas abordando eventos históricos desde a fundação da classe estancieira, a elite rural que move a engrenagem política e social do Estado, até a atmosfera do governo Vargas.
São 200 anos de constituição de uma região provinciana, de fronteira - por isso, alia-se a idéia de um Estado constantemente envolvido em conflitos militares - caracterizando o povo sulino como propensos ao comportamento agressivo, bélico, guerreiro.
A identidade patriarcalista alicerça os fundamentos morais e culturais da sociedade gaúcha.
Em uma cidade fictícia, Santa Fé, o AUTOR concentrará sua crítica - sendo expositivo, esclarecido, não negativando - ao tipo de conduta machista, violenta, dúbia que o os membros da elite representam.
No início, "O Continente", figuração representativa da unidade familiar, do elemento sólido, nos lança nas missões jesuíticas, durante as guerras guaraníticas; evento em que a União Ibérica - formada por Portugal e Espanha - em acordo estabelecido- pretendem retomar as reduções dos padres da ordem jesuíta( ambientados em reduções: tipos de micro-comunidades, de caráter de conduta coletiva.Os indígenas, desde o descobrimento, foram desarticulados de sua cultura elementar e absorvidos para a cultura ocidental europeia.Nas reduções, por exemplo, eram membros ativos da comunidade jesuítica, ajudando em ofícios, vestindo roupas, cumprindo ritos cristãos, promovendo a monogamia - alguns elementos que são plenamente diferente daquilo que estavam aculturados).
Ao passo da trama, o tempo avança e revela diversos hábitos da cultura e da mentalidade da região sulista; muitas vezes, aliada a intolerância e a um excesso de códigos de honra masculinizantes , baseados em uma moral rígida e patriarcal( como o mando de assassinato do índio Pedro Missioneiro pelo pai de Ana Terra, uma das mulheres mais expressivas da trama e representante maior do esteriótipo da figura feminina dos pampas, a mulher amada pelo indígena.A execução veio pela mão dos irmãos de Ana pelo fato de Pedro ter engravidado-a).
O fruto deste romance clandestino será Pedro Terra.
Pedro adulto, por sua vez, é pai de Bibiana Terra e Juvenal Terra.
Bibiana, outra grande personagem feminina de Érico, por seu turno, será atraída pelo distinto e singular Capitão Rodrigo - um dos mais antológicos personagens da Literatura Brasileira.
O capitão, um tipo errante, que , historicamente, como o termo gaúcho, pertenceria a um grupo inferiorizado, desvalido,pária social - ao contrário - é para o romance, então, uma espécie de herói; além, uma espécie de anti-herói.
Mesmo o capitão Rodrigo, uma figura bonachona, charmosa, viril, libertária, por sua vez, apresenta contrastes negativos que o legitimam como membro da perspectiva volátil do homem rude do pampa: aquele indivíduo combativo, dado aos vícios e transgressões sociais, como nos adultérios e jogos de azar.
Da união de Bibiana Terra e Capitão Rodrigo Cambará - o tipo macho que servirá na revolução Farroupilha, sendo amigo íntimo de Bento Gonçalves - se dará o clã principal da obra: a família Terra-Cambará.
A partir deste eixo, se destrincham outros grandes personagens, como Bolivar,Juvêncio Toríbio, doutor Rodrigo e Floriano
( membros destas raízes ancestrais e comportamentais dos Terra-Cambarás).
O início do livro é anacrônico; nos lança ao Sobrado, reduto em que se sucederá a noção de ciclo do romance, sendo o Continente começado e findado nesta mesma cena e ,enfim, no Arquipélago, final da trilogia - também retomada as circunstâncias acerca do tal Sobrado.Aqui, temos Bibiana já velha e Bolivar, seu filho, adulto, sitiados- com demais membros da família, como a misteriosa e sado-masoquista esposa de Bolivar, que fora disputa por ele e seu melhor amigo e primo, Juvêncio, na adolescência, Luzia Silva, em pleno conflito civil na cidade de Santa Fé. Luzia é vista pelo Dr.Winter, um cidadão esclarecido e que se permite observar de fora os fatos acerca de Santa Fé da família do Sobrado, de forma metafórica, como a personificação da lenda Teiuiaguá pelo seu afetamento sadista,enfim.
As técnicas de Érico são singulares: uso de Intermezzos - inserções recortadas e poetizadas na prosa para apresentar rápida e efetivamente, por exemplo, alguns personagens menos centralizadores / contrapontos / flash-back's.
Em "O Retrato", Dr.Rodrigo, filho de Licurgo, neto de Bolivar, assume a herança do clã. É pintado sob boas tintas no começo, tendo se formado em Medicina no RJ. Regressa para Santa Fé e representa a mudança; comprometesse com assistencialismo, é benevolente e politizado, convergindo uma certa liderança na região. Porém, a imoralidade - a partir de sua corrupção pessoal, de adultérios, por exemplo, comprometem seu retrato - pintura feita pelo amigo espanhol, Pepe Guerra, e exposto no sobrado.Ao fim, seu retrato já não parece o mesmo do começo, sendo aliançado com a idéia da subversão de Dr.Rodrigo( homônimo de seu antecessor, o Capitão, a partir do fascínio de seu pai pelas estórias sobre o ilustre Rodrigo Cambará, um homem dos quatro costados, contadas pelo singular Fandango - um peão da estância do Angico, um reduto da família para momentos de férias e afins).
Por fim, " O Arquipélago", destoando de Continente, representa a dissolução da família, a fragmentação. A ideologia de Dr.Rodrigo,no início do tomo anterior, dá vazão ao corrupto e degenerado Dr.Rodrigo em instantes finais de sua vida.
Sua relação com um de seus filhos, Floriano Cambará, se revela intrincada, distante e tensa. O rapaz representa a subjetividade que falta aos antecessores desta família caudilhesca dos confins do pampa. Dr Rodrigo representou, antes, uma alma caudilha com vultos intelectuais, mas deu espaço ao mais questionável comportamento. Porém, seu filho é um escritor, mais íntimo com a conduta das mulheres da família, que passa por crises amorosas e bloqueios criativos. Seus fantasmas estão aliados a falta de argumento emocional para com o pai.A distinção se dá , justamente, pela oposição sentimental.
Por fim, Floriano se desvela como alter ego do próprio autor, como compromissado em levar à cabo um romance que pregue a memória de seus antepassados; a idéia é contar a história de sua família, impregnada de elementos históricos, para conservar a identidade dos seus. Eis que, após acerto de contas afetivos para com o pai - já debilitado em um hotel, vivendo com uma das amantes, Floriano expurga seus demônios existenciais e se permite a confecção de um romance com traços já descritos.Então, a cena final retoma a cena do Sobrado e o que o Cambará - o único que quebra com a perspectiva dos demais - está escrevendo é nada menos do que o próprio romance que se anuncia no prelúdio da obra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário